talvez amanhã o teu rosto
se esconda no meu.
hoje é somente a nudez da despedida
e eu ignoro o dia.
mas o corpo
espera que anoiteça.
deixa ficar comigo a madrugada…
sento-me à beira do nada
e de poema nos lábios
rasgo a carne
na noite escancarada no horizonte
e no silêncio sem nome…
se eu pudesse tocar-te
mostrava-te a infância escondida
e entoaria cânticos de desejo
abafados desde sempre na garganta…
rasgo desfiladeiros
nas arribas dos nossos corpos
mas o meu olhar diz
que a minha partida não será anunciada.
escrevo recados breves
que penduro nos dias
frágeis,
enquanto viajo
por caminhos amarrotados
pelo tempo.
espero sempre
a noite,
a pele,
as estrelas
que olho da janela
onde me debruço a perceber o mundo.
amanhã talvez receba,
da tua boca,
a inocência num beijo cálido
que me diz que o vento
também sopra entre as dunas.
hoje foi um dia de passos abandonados pela casa.
olhares nas paredes brancas
uns mails
uns telefonemas
e um olhar repleto de ânsia
por páginas escritas pelo tempo…
às vezes não sei o que dizer e
olho só.
às vezes não quero dizer e
canto silêncios
às vezes escrevo
com voz de sorriso…
mas hoje queria apenas um beijo
do teu olhar