quarta-feira, 4 de novembro de 2015

João que não era Semana
Sexta-feira. Final do dia. Talvez um dia como tantos outros.
João, que não era Semana, prepara-se para o primeiro café da noite.
O jantar – uma espécie de – já tinha acontecido.
A barriga era comandada pelo escurecer. Um pouco mais escuro e uma côdea de broa, que resistia aos dias, e uma malga de um caldo estranho e aí estava a barriga forrada para a noite.
Agora era assim. Antes da fábrica falir, João, que não era Semana, saía às 7 horas e a janta tinha outros componentes. Eram tempos em que a escuridão não ditava regras.
- Um café acompanhado.
Paula já sabia, era um café com cheirinho daquela aguardente rija feita nos alambiques que nasceram depois da falência da fábrica.
- João, olha que a conta já vai grande, não posso continuar a apontar no livro…
- Mas eu sempre paguei tudo!!!
- Eu sei que sim, mas agora a conta já vai alta, não posso continuar a fechar os olhos, eu sou só a empregada…
- Desculpa, não quero arranjar-te problemas. Não tires o café.
E de olhar triste abandonou a sala.
Guiado pela luz pública tomou o caminho da fábrica que tinha falido.
Agora eram só escombros. E o olhar ficou ainda mais triste.
Entrou e subiu ao piso superior, o piso onde outrora estavam os patrões.
Tanto lixo…
Olhou em redor. A fábrica tinha-lhe roubado tanta coisa…
A saúde, o emprego, e agora até o café acompanhado.
Parou o pensamento. E num repente o corpo de João, que não era Semana, misturou-se com os restos de uma parede que tinha desabado…
E a fábrica voltou a roubar ao João, que não era Semana, agora a única coisa que ainda lhe restava: a vida.



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