sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016
madrugada
A casa fervilha no silêncio.
Pé ante pé, degrau a degrau, caminho para a porta da rua.
Volta na chave e... ar puro, o luar, o cheiro a terra e ao verde. Ao longe antevejo uma brisa que desce as faldas da serra.
O alpendre devolve-me a vida.. a soleira agarra o destino... e ali estava eu a olhar o amanhã, porque o hoje, embora imberbe, já tinha chegado.
Curvei-me sobre mim mesmo.
A cabeça nos joelhos antevia uma espera que somente iria terminar quando o nascer dos primeiros raios de luz espreitarem da montanha.
É duro o chão que olho.
Agora há passos dentro da casa... encolho-me ainda mais.
Podia esconder-me na escuridão ou simplesmente nas memórias.
Que parvoíce... o frio impede que caminhem para o exterior... estou a salvo!
Continuo sozinho...
e sinto a brisa e a madrugada por companhia.
sábado, 7 de novembro de 2015
brindar na noite
agora anoitecia mais cedo...
esta coisa da mudança da hora, baralhava sempre tudo.
Abel caminhava para casa de forma cambaleante. Não era o vento, era antes o "ar da pinga" que tinha escorregado na tasca do Zé das Furnas.
o vício das cartas lixava tudo...
quatro jogos, uma cabeça, uma rodada
e foi toda a tarde...
a porta de casa era agora demasiado pequena.
e abri-la? um problema bicudo.
após duas tentativas a porta abriu-se.
afinal a coisa não estava tão má...
a voz da mulher "acordou-o" do pensamento de júbilo...
- olha como tu estás! a cair de bêbado. Não tens vergonha? Que sorte a minha...
tinha sido ela quem abriu a porta, depois de ouvir o "sanforronar" da chave na fechadura por várias vezes.
tal como fazia nos outros dias em que ele chegava assim, ajudou-o a entrar em casa,
Abel sentou-se no sofá e com voz arrastada:
- oh mulher o que é a janta?
- mas ainda queres comer? não tens a barriga cheia de vinho? Encosta-te e dorme que o teu mal é sono,
Abel já nem ouviu o resto da frase. Ressonava forte e feio.
Manuela sentou-se na cadeira de todos os dias. A telenovela da tarde estava quase a começar.
o ronco do seu Abel não a ia deixar ouvir nada.
hoje como em tantos outros dias, Manuela estava sozinha.
levantou-se e foi para a cozinha.
do armário tirou uma garrafa que tinha comprado na Tasca do Zé das Furnas, arranjou um copo e encheu-o e brindando à solidão bebeu-o de um trago...
hoje como ontem, anteontem, antes de anteontem... era noite de brindar
agora anoitecia mais cedo...
esta coisa da mudança da hora, baralhava sempre tudo.
Abel caminhava para casa de forma cambaleante. Não era o vento, era antes o "ar da pinga" que tinha escorregado na tasca do Zé das Furnas.
o vício das cartas lixava tudo...
quatro jogos, uma cabeça, uma rodada
e foi toda a tarde...
a porta de casa era agora demasiado pequena.
e abri-la? um problema bicudo.
após duas tentativas a porta abriu-se.
afinal a coisa não estava tão má...
a voz da mulher "acordou-o" do pensamento de júbilo...
- olha como tu estás! a cair de bêbado. Não tens vergonha? Que sorte a minha...
tinha sido ela quem abriu a porta, depois de ouvir o "sanforronar" da chave na fechadura por várias vezes.
tal como fazia nos outros dias em que ele chegava assim, ajudou-o a entrar em casa,
Abel sentou-se no sofá e com voz arrastada:
- oh mulher o que é a janta?
- mas ainda queres comer? não tens a barriga cheia de vinho? Encosta-te e dorme que o teu mal é sono,
Abel já nem ouviu o resto da frase. Ressonava forte e feio.
Manuela sentou-se na cadeira de todos os dias. A telenovela da tarde estava quase a começar.
o ronco do seu Abel não a ia deixar ouvir nada.
hoje como em tantos outros dias, Manuela estava sozinha.
levantou-se e foi para a cozinha.
do armário tirou uma garrafa que tinha comprado na Tasca do Zé das Furnas, arranjou um copo e encheu-o e brindando à solidão bebeu-o de um trago...
hoje como ontem, anteontem, antes de anteontem... era noite de brindar
quinta-feira, 5 de novembro de 2015
chuva miúda
percorreu o caminho com passo apressado.
a chuva, miúda, penetra-lhe o cabelo e escorre no casaco impenetrável.
a distância é pequena.
a meta é já ali, numa transversal.
o branco brilha em contraste com um amarelo mortiço...
mas importam as cores?
claro que importam! mas outras cores.
o rosa, o azul...
há olhares, palavras, gestos
e policromia espalhada na chuva miúda, que molha o cabelo e escorre no casaco
percorreu o caminho com passo apressado.
a chuva, miúda, penetra-lhe o cabelo e escorre no casaco impenetrável.
a distância é pequena.
a meta é já ali, numa transversal.
o branco brilha em contraste com um amarelo mortiço...
mas importam as cores?
claro que importam! mas outras cores.
o rosa, o azul...
há olhares, palavras, gestos
e policromia espalhada na chuva miúda, que molha o cabelo e escorre no casaco
policromia à chuva
quarta-feira, 4 de novembro de 2015
João que não
era Semana
Sexta-feira. Final do dia. Talvez um dia como tantos outros.
João, que não era Semana, prepara-se para o primeiro café da noite.
O jantar – uma espécie de – já tinha acontecido.
A barriga era comandada pelo escurecer. Um pouco mais escuro e uma côdea de broa, que resistia aos dias, e uma malga de um caldo estranho e aí estava a barriga forrada para a noite.
Agora era assim. Antes da fábrica falir, João, que não era Semana, saía às 7 horas e a janta tinha outros componentes. Eram tempos em que a escuridão não ditava regras.
- Um café acompanhado.
Paula já sabia, era um café com cheirinho daquela aguardente rija feita nos alambiques que nasceram depois da falência da fábrica.
- João, olha que a conta já vai grande, não posso continuar a apontar no livro…
- Mas eu sempre paguei tudo!!!
- Eu sei que sim, mas agora a conta já vai alta, não posso continuar a fechar os olhos, eu sou só a empregada…
- Desculpa, não quero arranjar-te problemas. Não tires o café.
E de olhar triste abandonou a sala.
Guiado pela luz pública tomou o caminho da fábrica que tinha falido.
Agora eram só escombros. E o olhar ficou ainda mais triste.
Entrou e subiu ao piso superior, o piso onde outrora estavam os patrões.
Tanto lixo…
Olhou em redor. A fábrica tinha-lhe roubado tanta coisa…
A saúde, o emprego, e agora até o café acompanhado.
Parou o pensamento. E num repente o corpo de João, que não era Semana, misturou-se com os restos de uma parede que tinha desabado…
E a fábrica voltou a roubar o João, que não era Semana, agora a única coisa que ainda lhe restava: a vida.

João, que não era Semana, prepara-se para o primeiro café da noite.
O jantar – uma espécie de – já tinha acontecido.
A barriga era comandada pelo escurecer. Um pouco mais escuro e uma côdea de broa, que resistia aos dias, e uma malga de um caldo estranho e aí estava a barriga forrada para a noite.
Agora era assim. Antes da fábrica falir, João, que não era Semana, saía às 7 horas e a janta tinha outros componentes. Eram tempos em que a escuridão não ditava regras.
- Um café acompanhado.
Paula já sabia, era um café com cheirinho daquela aguardente rija feita nos alambiques que nasceram depois da falência da fábrica.
- João, olha que a conta já vai grande, não posso continuar a apontar no livro…
- Mas eu sempre paguei tudo!!!
- Eu sei que sim, mas agora a conta já vai alta, não posso continuar a fechar os olhos, eu sou só a empregada…
- Desculpa, não quero arranjar-te problemas. Não tires o café.
E de olhar triste abandonou a sala.
Guiado pela luz pública tomou o caminho da fábrica que tinha falido.
Agora eram só escombros. E o olhar ficou ainda mais triste.
Entrou e subiu ao piso superior, o piso onde outrora estavam os patrões.
Tanto lixo…
Olhou em redor. A fábrica tinha-lhe roubado tanta coisa…
A saúde, o emprego, e agora até o café acompanhado.
Parou o pensamento. E num repente o corpo de João, que não era Semana, misturou-se com os restos de uma parede que tinha desabado…
E a fábrica voltou a roubar o João, que não era Semana, agora a única coisa que ainda lhe restava: a vida.

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